• C.E.F.K.

Reparação histórica: reconhecimento intelectual das mulheres negras no Brasil

Lembro das minhas aulas de Literatura no colegial, o professor escrevia o roteiro da aula o quadro (ainda não éramos tão cercados de tecnologia) e já no início perguntava o que notávamos de diferença na lousa. Algumas tentativas sem sucesso dos alunos e ele revelava para classe que o que havia de novidade era que, pela primeira vez no ano, escrevia o nome de uma mulher. Depois de muitos meses de aulas, era a primeira vez que estudaríamos uma mulher na literatura brasileira: a romancista Raquel de Queiroz. Que foi também a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras e a primeira mulher a receber o prêmio Camões.

Não nos ensinam (ou como prefiro pensar, não nos ensinavam) que muito antes também existiu uma mulher romancista chamada Maria Firmina dos Reis. Mulher, romancista, negra e antiabolicionista, que traduzia sua luta na escrita. Seu romance, Úrsula, tem sido redescoberto, reeditado. Assim como o que vem acontecendo com a obra completa de Carolina Maria de Jesus, cujo livro Quarto de Despejo costumava ser o único encontrado nas livrarias.

Maria Firmino dos Reis Fonte da foto: http://www.palmares.gov.br/?p=34293

Recordo aqui as palavras do poema Soujornei Truth: Eu não sou uma mulher?

Esse apagamento, essa invisibilização das mulheres negras, que sabemos não acontecer só no Brasil, faz com que cresçamos acreditando que mulheres negras não tiveram papel ativo na história, na nossa história.

E são muitas as mulheres negras que fizeram e fazem, mudaram e mudam a história no país. Em sua última visita ao Brasil, em outubro de 2019, a estadunidense Angela Davis encheu auditórios e foi aclamada por muitos. Reconhecida, ela aproveitou os holofotes para reverenciar Lélia Gonzales, brasileira que foi referência para seus estudos. Clamou também para que nós olhássemos e valorizássemos o trabalho dessa mulher.

Lélia nasceu em 1935, em Minas Gerais, numa família da classe trabalhadora. Mudaram-se para o Rio de Janeiro onde ela se formou em história e filosofia. Foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, foi ativista, política, responsável pela introdução do debate sobre o racismo nas universidades brasileiras, enaltecendo as origens africanas e o “pretoguês”.

Lélia Gonzales Foto: https://www.geledes.org.br/hoje-na-historia-1935-nascia-lelia-gonzalez/

Seus estudos são muito importantes para o movimento negro e para a formação de uma sociologia nacional, que inclui as personalidades negras atuantes na história do país. Também denuncia a projeção embranquecida do estudos intelectuais brasileiros e o apagamento dos negros e negras decorrente do mito da democracia racial.

Atualmente, temos mais ferramentas para conhecer o trabalho intelectual das mulheres negras e precisamos direcionar nosso olhar, nossos interesses e nossas reflexões para elas. É preciso decolonizar nosso pensamento.

Ainda assim, diante de tanta possibilidade de mudança, até hoje, nenhuma mulher negra ingressou na Academia Brasileira de Letras. Precisamos redescobrir nossa história e construir novos caminhos para nosso futuro, que sejam feministas e antirracistas. E talvez nem precisemos mais nos enclausurar em academias.

Referências:

https://www.ebiografia.com/rachel_queiroz/

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/11/politica/1570793304_499201.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ain%27t_I_a_Woman%3F

http://www.palmares.gov.br/?p=34293

https://revistacult.uol.com.br/home/leiam-lelia-gonzalez/

https://www.youtube.com/watch?v=E_ZuzM3vIBc

https://www.geledes.org.br/livros-e-textos-de-lelia-gonzalez/

https://www.geledes.org.br/hoje-na-historia-1935-nascia-lelia-gonzalez/




Cristiane Duarte

Advogada feminista, atuante na área de direito de família e na defesa dos direitos das mulheres.

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